Jornal Ação de Barão/RS.


12/07/2026 às 11:07 // Informações.
Essa semana a Ortobras anunciou que começará a utilizar BioGL em sua operação industrial em Barão. A informação, divulgada na quarta-feira, 8 de julho, poderia ser resumida como mais uma iniciativa empresarial voltada à redução das emissões de carbono. O alcance da decisão, porém, é muito maior para a empresa e para o município onde ela está instalada.
A Ortobras tornou-se a primeira empresa brasileira a contratar o fornecimento de BioGL certificado. O acordo, firmado com a Supergasbras, marca o início da comercialização desse combustível renovável no Brasil. Isso significa que um mercado nacional começa oficialmente com uma indústria sediada em Barão.
O contrato prevê que o BioGL corresponda inicialmente a um volume equivalente a 5% do consumo anual de Gás Liquefeito de Petróleo da Ortobras. A participação deverá alcançar 10% em 2027, dentro da estratégia da empresa para reduzir as emissões associadas ao uso de combustíveis fósseis. A implantação será gradual, mas carrega um dado de grande relevância econômica: quando uma distribuidora nacional decidiu abrir uma nova frente comercial, o primeiro cliente escolhido para transformar a tecnologia em uma operação concreta estava em Barão.
É nesse ponto que a notícia ganha importância para o município.
O BioGL ainda ocupa um espaço inicial no mercado brasileiro. A primeira carga importada pela Supergasbras chegou da Europa em abril deste ano, pelo Porto de Tergasul, no Rio Grande do Sul. Cerca de dois meses depois, o combustível encontrou sua primeira aplicação comercial por meio do contrato com a Ortobras. Entre a chegada do produto ao país e sua entrada na rotina de uma indústria, Barão passou a fazer parte de uma experiência observada nacionalmente pelos setores de energia, sustentabilidade e produção industrial.
A escolha coloca o município em uma posição pouco comum. Grandes mudanças tecnológicas costumam ser associadas aos principais centros industriais, onde estão concentrados fornecedores, universidades, investidores e estruturas de pesquisa. Neste caso, o primeiro contrato brasileiro de BioGL conduz a atenção para uma cidade com menos de 10 mil habitantes, no interior do Rio Grande do Sul, porque é ali que está a empresa que aceitou iniciar o consumo de um combustível ainda caro, importado e sem produção nacional consolidada.
O BioGL custa atualmente quase o dobro do GLP convencional, segundo o presidente da Supergasbras, Júlio Cardoso, em entrevista à CNN. O produto ainda não compete pelo preço. Sua vantagem está na origem renovável e na possibilidade de reduzir as emissões atribuídas ao consumo de combustíveis fósseis. Mesmo diante dessa diferença de custo, a Ortobras decidiu iniciar a contratação e aumentar a participação do combustível no próximo ano.
Essa decisão ajuda a explicar por que Barão passa a ser observado com atenção econômica. Mercados novos precisam de empresas dispostas a realizar as primeiras contratações. Sem clientes, não existe demanda firme. Sem demanda, fornecedores encontram poucas razões para ampliar estruturas, financiar pesquisas, nacionalizar tecnologias ou buscar preços mais competitivos.
A Ortobras passa a cumprir esse papel inicial. A empresa oferece ao mercado um caso concreto de utilização industrial, cria demanda para o combustível e permite que a distribuidora teste os processos comerciais, logísticos e de certificação necessários para atender outros clientes. Cada etapa concluída em Barão poderá servir de referência para futuras negociações com indústrias de outras regiões brasileiras.
A Supergasbras informou à CNN que trabalha com cinco universidades em projetos destinados à produção de BioGL no Brasil. O objetivo é desenvolver tecnologia e capacidade produtiva em escala, aproveitando matérias-primas disponíveis no país, especialmente resíduos e produtos ligados à agroindústria. A empresa avalia que o crescimento da demanda poderá contribuir para a redução dos custos.
O combustível pode ser obtido a partir de óleos vegetais e resíduos orgânicos, como óleo de soja, canola, milho e óleo usado na cozinha. Outras rotas estudadas incluem resíduos plásticos e materiais provenientes do agronegócio. Essa característica aproxima o BioGL de setores nos quais o Brasil possui ampla disponibilidade de matéria-prima e capacidade de produção.
A localização da Ortobras também chama a atenção dentro desse cenário. A empresa está instalada em uma região de forte presença industrial e agropecuária, próxima a importantes corredores rodoviários e a municípios com cadeias produtivas consolidadas. A entrada de Barão no primeiro contrato brasileiro cria uma ligação direta entre o município e um setor que procura fornecedores, clientes, tecnologia, pesquisa e escala.
Até o momento, o contrato não representa anúncio de nova fábrica, expansão física da Ortobras ou investimento externo confirmado no município. A importância econômica está na posição ocupada por Barão dentro de um mercado que começa a ser formado. A cidade passa a aparecer em reportagens nacionais, publicações especializadas em energia e discussões empresariais sobre combustíveis renováveis porque uma de suas indústrias assumiu a primeira contratação do país.
Essa visibilidade pode fortalecer a imagem de Barão como município capaz de abrigar empresas que adotam soluções industriais de alcance nacional. Para fornecedores de tecnologia, instituições de pesquisa, empresas de energia e organizações interessadas em redução de emissões, a Ortobras passa a ser um exemplo real de aplicação. O nome do município acompanha essa exposição porque a operação ocorrerá na sede da empresa, localizada no bairro Operário, em Barão.
O contrato também possui valor comercial para a própria Ortobras. Empresas que compram equipamentos, contratam fornecedores ou participam de cadeias internacionais exigem cada vez mais informações sobre consumo de energia, origem de matérias-primas e redução de emissões. A utilização de um combustível certificado pode contribuir para que a indústria apresente dados ambientais verificáveis a clientes, parceiros e mercados.
A certificação adotada no contrato é a ISCC PLUS, padrão internacional que acompanha a origem sustentável e a rastreabilidade de materiais renováveis ao longo da cadeia de fornecimento. O sistema permite que matérias-primas renováveis e convencionais compartilhem estruturas industriais e logísticas, desde que as quantidades e os atributos ambientais sejam registrados, controlados e auditados.
Esse modelo é conhecido como balanço de massa. Em termos simples, o sistema comprova que determinado volume de matéria-prima renovável entrou na cadeia e substituiu uma quantidade equivalente de material fóssil. Como os produtos podem se misturar durante o processamento e a distribuição, a certificação acompanha os volumes por registros auditados. Portanto, os 5% contratados pela Ortobras correspondem a uma parcela certificada de seu consumo anual, dentro de um sistema internacional de rastreabilidade.
Outra vantagem do BioGL é a compatibilidade com a estrutura já utilizada pelas indústrias. O combustível possui características físico-químicas semelhantes às do GLP convencional e pode ser empregado nos mesmos equipamentos, sem alterações nas instalações do consumidor. Essa facilidade reduz uma das principais barreiras enfrentadas por novas fontes energéticas: a necessidade de substituir máquinas, tubulações ou sistemas de armazenamento.
A barreira atual está no preço e na disponibilidade. O combustível ainda vem da Europa, possui custo elevado e atende um mercado restrito. A própria Supergasbras reconhece que a criação de uma demanda estável será decisiva para justificar produção em escala e alcançar valores mais competitivos.
Nesse cenário, os primeiros clientes têm peso estratégico. Eles mostram que existe interesse empresarial suficiente para sustentar pesquisas, importações, certificações e futuros projetos produtivos. A Ortobras assume essa posição a partir de Barão.
A reportagem desta semana apresentou a decisão. O próximo passo do Jornal Ação será ouvir a Ortobras para compreender as razões que levaram a empresa a assumir o primeiro contrato brasileiro, como ocorrerá a utilização do combustível na fábrica, quais resultados ambientais são esperados, quais custos estão envolvidos e de que maneira a iniciativa se relaciona com os planos futuros da indústria.
Enquanto essa entrevista é preparada, um fato já pode ser compreendido pela população: Barão entrou em uma discussão econômica nacional porque uma empresa do município aceitou começar onde o restante do mercado ainda estuda como avançar.
O Brasil procura formas de produzir BioGL em escala. Universidades desenvolvem projetos, fornecedores estruturam cadeias de rastreabilidade e distribuidoras buscam clientes dispostos a pagar mais por um combustível renovável. No início dessa rede está uma indústria instalada em Barão.
Essa é a razão pela qual o município ganha visibilidade. O primeiro negócio brasileiro de um mercado energético emergente começa dentro de seus limites.
Imagem: Chegada do navio em abril no Tergasul / Divulgação
Fontes: CNN Brasil, Petronotícias, Supergasbras e International Sustainability and Carbon Certification.
Texto: Rita Santos/Jornal Ação.

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