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O QUE NÃO CABE NA MANCHETE

01/07/2026 às 21:35 // .

Comenta-se que, quando a bola começa a rolar em uma Copa do Mundo, o Brasil muda de ritmo como se alguém tivesse girado um botão invisível da realidade. As ruas ficam mais vazias em certos horários, as conversas passam a ter um mesmo assunto dominante, e até quem diz não se importar acaba, de algum modo, atravessado pelo clima coletivo que se forma.

Não é apenas sobre futebol. É sobre um raro momento em que milhões de pessoas ajustam seus relógios internos ao mesmo compasso. Há uma espécie de sincronização emocional: a expectativa antes do apito inicial, o silêncio que antecede um lance decisivo, o grito que sai ao mesmo tempo em diferentes casas, bares, escolas e empresas. Por alguns instantes, o país parece caber dentro de uma mesma narrativa.

Mas talvez o mais interessante não esteja no jogo em si, e sim no que ele revela. Em um cotidiano marcado por distâncias — sociais, econômicas, emocionais — a Copa cria uma ilusão breve de pertencimento coletivo. Pessoas que nunca se encontrariam dividem a mesma ansiedade, a mesma euforia e, às vezes, a mesma frustração. É um tipo de união que não nasce de consenso, mas de emoção.

Ainda assim, essa pausa não é igual para todos. Enquanto parte do país se permite parar, outra parte apenas observa de longe, ou segue trabalhando, cuidando, produzindo, sem o luxo de se desconectar completamente. A mesma Copa que une também evidencia desigualdades silenciosas: quem pode parar, quem não pode, e quem para só por dentro.

E talvez seja aí que o fenômeno se torne mais humano do que esportivo. Porque, no fim, o que se vê não é apenas um jogo de onze contra onze, mas um espelho coletivo. Um retrato momentâneo de um país que, mesmo tão dividido em tantos aspectos, ainda encontra formas de respirar junto — ainda que por noventa minutos.

Quando tudo termina, fica o silêncio que volta aos poucos. As rotinas retomam seu lugar, as ruas se reorganizam, e a vida segue como sempre seguiu. Mas algo permanece no ar: a lembrança de que, por um breve intervalo, foi possível sentir o país inteiro cabendo dentro de uma mesma emoção.

 

Por Jaqueline Debald, escritora e autora de cinco livros publicados. Observadora das ruas, dos silêncios e das pequenas revoluções que acontecem na vida comum, escreve para transformar sentimentos em reflexão e pertencimento. Para saber mais, acesse: 

 https://sites.google.com/view/escritorajaquelinedebald