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O QUE NÃO CABE NA MANCHETE

24/06/2026 às 19:04 // .

Comenta-se que o inverno chegou. E junto dele vêm os casacos, os cobertores e os cuidados com o frio. Mas existem frios que não passam pela pele.

Todos os anos nos preparamos para a chegada do inverno. Tiramos os casacos do armário, reforçamos os cuidados com a saúde e buscamos maneiras de nos proteger das baixas temperaturas.

Mas existe um frio que não aparece na previsão do tempo.

É o frio da solidão, que faz uma casa cheia parecer vazia. O frio da saudade, que insiste em ocupar o lugar de quem já não está. O frio da ausência, do silêncio prolongado, das palavras que nunca foram ditas e dos abraços que ficaram para depois.

Esses frios não se combatem com cobertores.

Vivemos em uma época em que sabemos muito sobre o clima, mas pouco sobre o que o outro está enfrentando. Cruzamos diariamente com pessoas que sorriem, trabalham, conversam e aparentam estar bem.

Ainda assim, carregam dentro de si um inverno que ninguém vê.

Nem toda dor faz barulho.

Há quem enfrente batalhas silenciosas, escondidas atrás de uma rotina aparentemente comum. Pessoas que aprenderam a responder "está tudo bem" mesmo quando tudo parece desmoronar por dentro.

Talvez por isso o inverno nos convide a refletir sobre outro tipo de aquecimento.

O calor da presença.

Uma mensagem enviada sem motivo. Um café compartilhado. Uma visita inesperada. Um abraço demorado.

Uma escuta sem pressa. Gestos simples que, para quem atravessa dias difíceis, podem significar muito mais do que imaginamos.

Acolher alguém nem sempre exige respostas. Muitas vezes, basta disposição para permanecer ao lado.

Em um mundo que nos incentiva a correr o tempo todo, oferecer tempo talvez seja uma das maiores demonstrações de carinho.

O inverno também passa.

E, da mesma forma, os invernos que carregamos por dentro costumam encontrar algum alívio quando descobrimos que não precisamos enfrentá-los sozinhos.

Que esta estação nos lembre de cuidar do corpo, mas também do coração. Do nosso e do daqueles que caminham ao nosso lado.

Porque algumas pessoas não precisam de soluções.

Precisam apenas de alguém que as ajude a acreditar que, depois do frio mais intenso, a primavera sempre encontra um jeito de florescer.

 
Por Jaqueline Debald, escritora e autora de cinco livros publicados. Observadora das ruas, dos silêncios e das pequenas revoluções que acontecem na vida comum, escreve para transformar sentimentos em reflexão e pertencimento. Para saber mais, acesse: https://sites.google.com/view/escritorajaquelinedebald