Jornal Ação de Barão/RS.


27/10/2026 às 21:10 // Educação.
O Azulão
Camila Calliari
Toda aventura começava quando eu ouvia o barulho do jipe azul. Ele vinha de longe e eu já reconhecia. Era o momento de abrir a janela, parar tudo o que estava fazendo e esperar para ver se era mesmo o Azulão chegando.
Quando confirmava que era ele, abria a porta e corria em sua direção. Me apoiava na portinha traseira e saltava para dentro. Sabia que, naquele momento, a aventura ia começar.
Lá dentro, ficava em pé, segurando uma barra de ferro preta que havia atrás. Prestava atenção em cada detalhe e em tudo o que meu pai fazia para dirigir. O jipe tinha três marchas e eu achava aquilo muito legal, porque nos carros normais só via uma. Não fazia ideia para que serviam, mas acompanhava cada movimento do meu pai.
Ele engatava a marcha ré para a frente, acelerava um pouco e o Azulão começava a andar. Logo eu sentia os cabelos voando e aquela pequena dificuldade de manter os olhos abertos por causa do vento.
Assim começavam nossos passeios pela cidade de Barão.
Todos os vizinhos já reconheciam o Azulão de longe. Para o meu pai, que era comerciante, aquele jipe era um verdadeiro quebra-galho. Servia para entregar gás, levar jornais e resolver as mais diferentes tarefas. Também participava dos desfiles de 7 de Setembro e das carreatas quando o time “Força e Luz” ganhava o campeonato.
Para mim, porém, ele servia para outra coisa: viver aventuras.
No final da tarde, chegava a hora do meu passeio preferido. Meu pai precisava levar ração para os animais que criava e eu, é claro, ia junto.
Saíamos do centro da cidade e entrávamos pelas estradas de chão batido. Ali, o Azulão parecia estar em seu habitat natural. Afinal, que graça teria um jipe se não pudesse andar na terra e levantar poeira para todos os lados?
Eu adorava percorrer aquelas estradas do interior do município, sentindo o vento no rosto e ouvindo o som das pedras saltando quando o jipe passava por elas. Em pé, segurando firme naquela barra de ferro, observava o caminho e tinha a sensação de que qualquer coisa poderia acontecer.
Não precisava ir muito longe. Para mim, estar dentro do Azulão já era parte da aventura.
Até que um dia acordei e ele não estava mais lá.
Procurei na garagem e em outros lugares onde costumava encontrá-lo. Nada. Fui perguntar ao meu pai onde estava o jipe e descobri que ele havia sido vendido.
Eu era pequena e não lembro de muitos detalhes daquele dia. Nem sequer lembro da última vez em que andei nele.
Meu pai provavelmente nunca imaginou que aquele velho jipe, usado para entregar gás, jornais e ração, pudesse significar tanta coisa para mim.
Para ele, o Azulão era um quebra-galho.
Para mim, era onde começavam as aventuras.
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