Jornal Ação de Barão/RS.


16/09/2026 às 21:52 // Esportes.
Entre os 11 e os 13 anos João Scatolin treinava muito mais do que jogava. Raramente aparecia nas listas de relacionados do Juventude. Quando era convocado, recebia poucos minutos em campo ou permanecia no banco de reservas.
A falta de oportunidades chegou a fazer Giovanni Scatolin, pai do atleta, considerar se ainda valia a pena manter aquela rotina. João saía cedo de Barão, passava o dia entre a escola, a estrada e o treino em Caxias do Sul e, muitas vezes, retornava para casa somente à noite. O esforço era alto, e a resposta dentro de campo ainda não aparecia.
João nunca falou em desistir. Repetia ao pai que continuaria e que um dia seria jogador profissional.
Aos 18 anos, o menino que insistiu quando quase não jogava foi contratado pelo Grêmio. O atacante baronense assinou contrato por quatro temporadas e chega inicialmente para integrar a equipe sub-20 do clube da capital.
A contratação encerra um ciclo de 11 anos no Juventude e confirma uma convicção que João sustentou antes de receber espaço, disputar finais ou entrar em uma Arena lotada. A história que agora alcança um dos clubes mais tradicionais do país começou em Barão, dentro de uma casa ainda em construção.
O primeiro chute que ficou na memória
João tinha quatro ou cinco anos quando uma bola de pano atravessou o corredor da casa da família e atingiu uma antiga imagem de São Miguel Arcanjo. O impacto quebrou o dedo da imagem que apontava para o céu.
Giovanni, jogador de futebol amador, guardou o episódio como a primeira demonstração da força que o filho imprimia à bola. “Para aquela idade, e por ser uma bola de pano, uma criança não teria aquela força para fazer a bola chegar onde chegou”, recorda.
O primeiro contato de João com uma equipe ocorreu por volta dos sete anos. Paulo Werner, treinador de uma categoria sub-10 do Aliança, observava o menino bater bola durante os intervalos das partidas de futebol de campo disputadas por Giovanni.
Mesmo mais novo que os demais integrantes da equipe, João recebeu o convite para treinar no ginásio de esportes de Linha Francesa Alta. “Meu primeiro contato com uma escolinha foi com o Paulo Werner. Ele me via batendo bola nos intervalos dos jogos do meu pai e falou que gostaria que eu treinasse com o time dele. Eu tinha uns sete anos, e a categoria era sub-10”, conta João.
O Aliança colocou João dentro de uma equipe. Pouco tempo depois, Fernando Bock, de Garibaldi, viu o menino jogar futsal em Barão e o levou para a Associação Carlos Barbosa de Futsal, a ACBF.
A passagem pela equipe de Carlos Barbosa ampliou sua experiência esportiva e abriu o caminho para o Juventude. Também por intermédio de Fernando Bock, João foi levado a Caxias do Sul para realizar um teste.
Chegou tímido e encontrou em Jonas da Rosa, então coordenador e professor da base, uma presença que seria decisiva em sua formação. “Cheguei todo encabulado. O Fernando me apresentou ao Jonas, que conversou comigo e me deixou tranquilo. A partir dali as coisas foram acontecendo. O Jonas foi uma pessoa fundamental na minha vida e na minha carreira até aqui”, afirma João.
O teste transformou-se em permanência. Durante os 11 anos seguintes, o Juventude seria o clube responsável por conduzi-lo da infância ao futebol profissional.
A estrada entre Barão e Caxias do Sul
A formação de João exigiu que a rotina da família se adaptasse ao futebol. Ele saía de casa às 6h40 para estudar. Muitas vezes não conseguia retornar para almoçar e seguia diretamente da escola para o treino em Caxias do Sul. A volta a Barão ocorria por volta das 19h ou das 20h.
Dos sete aos 13 anos, esse deslocamento fez parte de praticamente todos os dias de treino. Giovanni assumia grande parte das viagens. Em outros momentos, o tio Gilvan ajudava. Nos anos seguintes, Francisco Müller, conhecido como Fraz, passou a levá-lo e buscá-lo com frequência.
O cansaço atingia os estudos e reduzia o tempo disponível para as tarefas escolares mas, segundo João, nunca comprometeu sua presença no clube. “Muitas vezes eu não conseguia entregar os trabalhos da escola porque saía às sete da manhã e voltava para casa somente às oito da noite. Mesmo com toda a correria e o cansaço, em todos esses anos eu nunca perdi nem cheguei atrasado a um treino”, relata.
A sustentação daquela rotina envolveu também os avós Belmiro e Inês, o tio Gilvan, a tia Ângela e amigos que ajudaram a família em diferentes momentos.
Quando havia partidas fora de Caxias do Sul ou do Rio Grande do Sul, pai e filho saíam de Barão ainda de madrugada. O café da manhã era feito na estrada e em alguns momentos o dinheiro disponível obrigava Giovanni a escolher entre comer e garantir que nada faltasse ao filho. “Muitas vezes ele tomava café e eu não tomava, porque era muito difícil. Eu precisava poupar para que não faltasse para ele”, conta o pai.
Durante anos a família investiu em trabalho, tempo e recursos sem saber se o futebol devolveria uma oportunidade. Giovanni, contudo, atribui ao próprio João a parte determinante daquele esforço. “Foram anos de muita luta para conciliar o trabalho e acompanhá-lo no futebol. Mas o empenho maior foi totalmente dele”, reconhece.
Quando o esforço ainda não produzia oportunidades
No ambiente do futebol, João passou a ser chamado pelo sobrenome. “João é praticamente só a família que ainda chama”, brinca Giovanni.
O tom muda quando o pai recorda o período entre os 11 e os 13 anos. Scatolin treinava, cumpria os horários e mantinha a disciplina, mas quase não era convocado.
Giovanni chegou a acreditar que o filho poderia pedir para parar. Em alguns jogos João não aparecia sequer entre os relacionados. Em outros, permanecia no banco ou entrava por poucos minutos.
A resposta do menino era sempre a mesma: continuaria porque seria profissional.
A interrupção das atividades esportivas durante a pandemia modificou aquela sequência. Giovanni havia construído um pequeno campo junto à casa da família. Com os treinos do Juventude suspensos, João passou a ocupar o espaço durante o dia inteiro. “Ele amanhecia e anoitecia no campo”, resume o pai.
Naquele período João também contou com o trabalho de preparação física de Gabriela Juchem, a Gabi. Quando o clube retomou as atividades, retornou em melhores condições e começou a conquistar o espaço que antes não aparecia.
“A Gabi o deixou voando fisicamente. Quando os treinos voltaram, ele chegou voando, literalmente. Foi ali que tudo começou a acontecer”, relata Giovanni.
O período de pouca utilização do jogador não desapareceu da história. Tornou-se a medida da persistência que acompanharia João nas temporadas seguintes.
Quatro anos entre os finalistas do Estado
Integrante da geração de atletas nascidos em 2008, João chegou a quatro finais consecutivas do Campeonato Gaúcho nas categorias de base.
Em 2023, conquistou de forma invicta o título estadual sub-15 diante do Grêmio. No ano seguinte, foi campeão gaúcho sub-17 sobre o Internacional. Em 2025, ficou com o vice-campeonato sub-17 após nova decisão contra o Grêmio. Em 2026, já no sub-20, disputou outra final e terminou como vice-campeão diante do Internacional.
A sequência colocou o atacante em decisões durante quatro temporadas consecutivas e acompanhou sua evolução do sub-15 ao futebol profissional.
Em 2026, antes da transferência, João disputou 21 partidas e marcou oito gols pela equipe sub-20 do Juventude. Também fez sete jogos pelo time principal: um pela Copa do Brasil e seis pela Copa Sul-Sudeste.
Os números confirmavam o crescimento de um atleta que, poucos anos antes, lutava para aparecer nas listas de relacionados.
A estreia diante do futuro clube
A primeira partida de João pela equipe profissional do Juventude ocorreu em 26 de outubro de 2025. Aos 17 anos, ele entrou aos 20 minutos do segundo tempo no lugar de Gilberto.
O adversário era o Grêmio. O local, a Arena, em Porto Alegre.
O Juventude perdeu por 3 a 1, mas aquela tarde representava a confirmação de uma promessa que João havia repetido ao pai durante os anos de poucas oportunidades.
“A minha estreia no profissional foi algo que não tenho palavras para descrever. Estrear contra o Grêmio, um gigante do futebol, com a Arena cheia, foi surreal para mim”, recorda.
João ainda não sabia que retornaria ao mesmo clube em outra condição. Menos de um ano depois, o Grêmio decidiu investir em sua contratação.
Ao tomar conhecimento do interesse, o atacante evitou acompanhar diretamente as tratativas. A negociação ficou sob responsabilidade dos clubes e de seus representantes, Zé Maria Neis, Cristian Neis e Stefano Castagna.
A confirmação chegou à família por meio de um grupo mantido com os empresários no WhatsApp.
“A gente sabia que havia uma sondagem, mas, quando veio a confirmação, foi uma alegria enorme. Sempre foi um sonho dele jogar e defender a camisa do Grêmio”, conta Giovanni.
Segundo informações publicadas pela imprensa esportiva, o Grêmio investiu cerca de R$ 1,5 milhão para adquirir 50% dos direitos econômicos que pertenciam ao Juventude. O clube de Caxias do Sul permaneceu com 30% do atleta, de olho em uma possível negociação futura.
A concretização do acordo também marcou a despedida de uma instituição que acompanhou praticamente toda a formação de João.
“O Juventude foi minha casa por 11 anos. Foi o clube que me deu a oportunidade de ser jogador profissional, e tenho uma gratidão imensa. Procurei não me envolver na proposta porque sabia que seria uma negociação entre os clubes e os meus empresários. Tudo deu certo, e hoje estou realizando um sonho de menino”, afirma.
Um atacante para quem não existe bola perdida
João chega ao Grêmio com capacidade para atuar em diferentes posições do ataque. Prefere jogar pelo lado esquerdo, mas também pode exercer funções pela direita e como falso 9.
Ao definir o próprio futebol, destaca uma característica construída durante os anos em que precisou treinar sem a recompensa imediata de entrar em campo.
“Eu me defino como aquele cara para quem não tem bola perdida, que luta do começo ao fim. Tenho muita coisa para aperfeiçoar e acredito que encontrarei profissionais que vão mostrar onde preciso melhorar”, diz.
Fora de campo, Giovanni descreve o filho como um jovem humilde, carismático e ligado às próprias origens.
“É um filho amado, um menino humilde e querido por todos que o conhecem desde pequeno. Ele faz questão de deixar claro o orgulho que sente de Barão e de ter vivido a infância aqui. Chega ao Grêmio com alegria, vontade e a mesma garra com que sempre defendeu o Juventude”, afirma o pai.
A família muda, Barão permanece
A contratação provocou uma mudança concreta na vida dos Scatolin. A família transferiu-se para Porto Alegre, decisão tomada para facilitar a logística e permanecer unida durante a adaptação ao Grêmio.
João chega ao novo clube sem estabelecer publicamente uma meta de gols ou partidas. Seu primeiro compromisso está relacionado à responsabilidade de vestir a camisa tricolor.
“Quero vestir essa camisa, honrá-la e ajudar o Grêmio onde estiver e onde precisar”, afirma o atacante baronense.
Aos 18 anos Scatolin leva ao Grêmio a experiência de 11 anos de formação, quatro finais estaduais consecutivas e passagens pelo futebol profissional. Leva também a disciplina que manteve quando seu nome ainda não aparecia nas listas e a convicção que resistiu ao período em que quase não jogava.
A família agora vive em Porto Alegre, mas João continua situando o começo de sua história no mesmo lugar. Foi em Barão que Paulo Werner o observou, que o Aliança lhe ofereceu a primeira equipe, que a família sustentou os deslocamentos e que um pequeno campo permitiu a continuidade dos treinos quando o futebol parou.
No clube, ele é Scatolin. Para a família, continua sendo João. Para Barão, é o atleta que deixou o município ainda criança para treinar, enfrentou anos de estrada e chegou ao Grêmio sem apagar o lugar de onde veio.
“Barão é a minha casa, onde nasci, cresci e vivi parte da infância. É a minha terra amada”, finaliza João.
Imagens: Arquivo pessoal da família Scatolin.
Texto: Rita Santos.

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