Jornal Ação de Barão/RS.


08/08/2026 às 19:36 // Agricultura.
Antes de uma garrafa da Valparaiso chegar à Suécia, houve uma propriedade abandonada, 42 hectares de parreirais cobertos pelo mato e uma cantina antiga ocupada por enormes pipas de madeira. Foi nesse cenário que Arnaldo Antônio Argenta decidiu reconstruir um sonho aprendido ainda na infância.
Duas décadas depois, a Valparaiso Vinhos e Vinhedos produz em pequena escala, adota um modelo voltado à preservação do solo e leva o nome de Barão para restaurantes, premiações e eventos internacionais. O trabalho permanece familiar: Arnaldo cuida do campo e da produção, a filha Naiana Argenta conduz a administração, as finanças, a logística, o desenvolvimento dos produtos, a comercialização e a comunicação.
A quarta reportagem da série Especial | 30 anos da agricultura de Barão mostra como uma propriedade ligada ao passado agrícola de Vila Rica foi recuperada e encontrou uma nova forma de produzir.
Quando dezenas de pessoas colhiam uvas em Vila Rica
A cantina da antiga Granja Valparaiso foi construída em 1935. Suas paredes de pedra basáltica, com cerca de 80 centímetros de espessura, permanecem preservadas.
Na década de 1970, a propriedade possuía 42 hectares de videiras e chegou a produzir aproximadamente 1,5 milhão de quilos de uvas. Segundo Arnaldo, reportagens da época registraram o local como o maior vinhedo em área contínua do Brasil.
Durante a colheita, entre 70 e 80 trabalhadores percorriam os parreirais. As uvas eram recolhidas em cestas e transportadas em carretas de bois. Na cantina, o vinho ficava armazenado em pipas de madeira com capacidade para até 100 mil litros. Depois seguia a granel, de trem ou caminhão, para São Paulo e Rio de Janeiro.
A antiga granja gerava emprego e renda para dezenas de famílias. Arnaldo relaciona o próprio nome Vila Rica à riqueza produzida naquele lugar.
Quando ele encontrou a propriedade, em 2006, esse período havia terminado. Os vinhedos estavam abandonados, o mato havia tomado conta da área e a cantina ainda conservava as marcas de outra época.
O sonho de um filho de agricultores
Arnaldo é filho e neto de viticultores. Desde os sete anos, participava do trabalho com as uvas, atividade que representava a principal fonte de renda de sua família.
Aos oito anos foi enviado para um seminário. Sua mãe acreditava que a formação religiosa poderia oferecer melhores condições ao filho. Naquele período, Arnaldo fez a promessa para mãe de estudar e dar certo na vida.
Mais tarde, estudou Administração e economizou para cursar Agronomia. Tornou-se engenheiro agrônomo, acumulou mais de 40 anos de experiência e prestou assistência técnica a centenas de agricultores.
O objetivo, porém, continuava ligado ao que havia aprendido com os pais. “Eu sempre tive o sonho de, quando tivesse uma condição financeira melhor, ter uma estrutura, uma cantina, e reproduzir o que eles faziam. Hoje tenho condições melhores, mas o método de vinificação é o deles.”
Depois de comprar a antiga granja, Arnaldo passou cerca de dois anos preparando o terreno, recuperando o solo e organizando as estradas internas.
Como a uva levaria quase seis anos entre o plantio, a primeira colheita e a comercialização do vinho, ele começou produzindo maçã, ameixa e pêssego. As frutas, favorecidas pelo clima da região, garantiriam uma renda mais rápida enquanto os novos vinhedos cresciam.
A primeira safra completa de uvas viníferas ocorreu em 2018.
Uma propriedade diferente da antiga granja
A Valparaiso continua com 60 hectares, mas somente sete são ocupados pelos vinhedos. No restante da propriedade estão mata nativa, árvores frutíferas, oliveiras, açudes e áreas de preservação.
A antiga concentração de 42 hectares de videiras deu lugar a um ambiente diversificado. Para Arnaldo, cuidar do solo significa preservar sua capacidade de produzir para as gerações futuras.
As videiras são protegidas por coberturas que reduzem o contato das folhas com a chuva, um dos principais problemas para a produção de uvas na Serra Gaúcha. Entre as fileiras, diferentes plantas ajudam a recuperar e nutrir o solo. O manejo dispensa herbicidas, e boa parte do trabalho é feita manualmente.
Na cantina, a fermentação ocorre com as leveduras presentes nas próprias uvas. O vinho segue o tempo da natureza, sem correções destinadas a padronizar o resultado.
“Cada tanque é uma surpresa para nós. Como não fazemos modificações enológicas, é a natureza que nos comanda”, considera a filha Naiana.
A filha que colocou os vinhos no mercado
Naiana chegou à Valparaiso depois de trabalhar durante 15 anos em uma multinacional de Caxias do Sul e morar três anos fora do Brasil. Sua formação em comércio exterior e marketing passou a complementar o conhecimento agrícola do pai.
Ela percebeu que Arnaldo havia desenvolvido um modelo diferenciado, mas não utilizava uma linguagem capaz de explicar esse trabalho ao mercado.
“Meu pai nunca disse: ‘Nós produzimos vinhos naturais ou de mínima intervenção’. Ele é muito técnico. O negócio dele é produzir.”
Naiana buscou orientação, ajudou a criar o posicionamento da empresa e apresentou os produtos ao mercado. Quando ainda não havia recursos para contratar um designer, ela mesma desenvolveu os primeiros rótulos da linha Vitale.
O nome homenageia seu avô paterno, pai de Arnaldo, que também era viticultor. A assinatura dele foi incorporada ao rótulo. Em uma única garrafa, ficaram reunidos o nome do avô, o conhecimento do pai e o trabalho da filha.
Hoje, Naiana coordena praticamente toda a operação fora do campo. A equipe é pequena: ela, Arnaldo, dois trabalhadores nos vinhedos e uma pessoa da família que auxilia na cantina e na preparação dos pedidos.
Três enchentes em três anos
Entre 2023 e 2025, a propriedade sofreu três enchentes consecutivas. A mais grave ocorreu em maio de 2024.
A água invadiu a cantina, cobriu máquinas com lama, danificou pontes e deixou parte dos vinhedos submersa. Toda a produção que estava em fermentação foi perdida. O prejuízo acumulado chegou a R$ 1,5 milhão.
Mesmo diante da destruição, Arnaldo lembrou que outras famílias haviam perdido ainda mais. “Temos ainda que agradecer. Isto aqui nós vamos retirando devagar, com calma, com fé em Deus e com união. Vamos sair desta situação.”
Entre as garrafas soterradas, 180 foram recuperadas, limpas e comercializadas como “Edição Inundação”. Arnaldo calcula que a reconstrução completa deverá levar pelo menos cinco anos.
De Barão para outros países
Apesar da estrutura reduzida e das perdas provocadas pelas enchentes, os vinhos produzidos em Vila Rica chegaram a restaurantes comandados por chefs como Alex Atala e Paola Carosella.
Em 2023 o Naturo Torrontés conquistou o terceiro lugar entre os vinhos brancos do Prêmio CNA Brasil Artesanal. No ano seguinte, a Valparaiso foi a única empresa brasileira entre centenas de participantes da Slow Wine Fair, realizada em Bolonha, na Itália. Em maio de 2025, fez sua primeira exportação para a Suécia.
Em 2026 passou a disputar com seis produtores de projeção nacional o título de Melhor Produtor Brasileiro no Melhores da Taça, promovido pela revista Prazeres da Mesa.
A propriedade que já produziu vinho a granel encontrou outra escala e outros mercados. No mesmo lugar onde as uvas eram transportadas em carretas de bois, uma pequena equipe familiar produz vinhos naturais que atravessam fronteiras.
A história da Valparaiso ajuda a compreender o que mudou na agricultura de Barão durante as últimas décadas. Permanecer no campo passou a exigir conhecimento técnico, gestão, capacidade de adaptação e alguém disposto a dar continuidade ao trabalho.
Em um município de cerca de 6,4 mil habitantes, Arnaldo e Naiana mostram que o tamanho do lugar não determina o alcance daquilo que se produz nele.
O reconhecimento mais recente chegou em agosto de 2026: a Valparaiso foi escolhida por especialistas como uma das sete finalistas da categoria Melhor Produtor Brasileiro no Melhores da Taça, promovido pela revista Prazeres da Mesa. A vinícola de Barão concorre com Era dos Ventos, Família Geisse, Guaspari, Miolo, Pizzato e Vinhas do Tempo. Segundo Naiana, a indicação representa o resultado de seis anos de trabalho para ampliar a presença da empresa no mercado nacional. A votação popular permanece aberta até 16 de agosto e pode ser realizada na página oficial da premiação.
Fontes: depoimentos de Arnaldo Antônio Argenta e Naiana Argenta; Valparaiso Vinhos e Vinhedos; Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil; revista Dante Cultural; CNN Brasil; Globo Rural; Brasil de Vinhos e Prazeres da Mesa.
Imagem: Valparaiso Vinhos e Vinhedos/Divulgação.
Texto: Rita Santos para o Jornal Ação.

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