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O QUE NÃO CABE NA MANCHETE

10/03/2026 às 12:22 // .

Comenta-se muito no início de março. As redes se enchem de flores, frases bonitas e elogios apressados. Há quem lembre da mãe, da esposa, da amiga, da colega de trabalho. Há homenagens, fotos antigas, mensagens que falam de força, de delicadeza, de tudo aquilo que se espera de uma mulher.

Comenta-se sobre o quanto elas são incríveis.

Mas, depois que o dia passa, o silêncio volta a ocupar o espaço das palavras.

E talvez seja nesse silêncio que mora a parte que quase nunca vira homenagem.

Ser mulher, por aqui, muitas vezes é aprender cedo certas coreografias invisíveis: avisar quando chega em casa, olhar para trás ao atravessar uma rua vazia, medir caminhos, horários, roupas, palavras. Pequenos cuidados que parecem banais para quem observa de fora, mas que fazem parte de uma espécie de vigilância cotidiana.

Comenta-se pouco sobre isso.

Assim como se comenta pouco sobre os medos que se aprendem sem aula, sobre os limites que se impõem antes mesmo que alguém precise dizê-los em voz alta. Há coisas que se tornam hábito — não porque deveriam ser, mas porque o mundo ensinou que talvez seja mais seguro assim.

E, ainda assim, elas seguem.

Seguem ocupando espaços, criando filhos, trabalhando, cuidando, liderando, sonhando. Seguem rindo alto, mesmo quando o mundo parece sugerir silêncio. Seguem encontrando umas nas outras a coragem que às vezes falta quando se está sozinha.

Porque ser mulher também é isso: uma espécie de resistência cotidiana que raramente vira manchete.

Talvez por isso o mês de março traga tantas palavras bonitas. Talvez seja uma tentativa coletiva de lembrar aquilo que, no resto do ano, muitas vezes passa despercebido.

Comenta-se, celebra-se, compartilha-se.

Mas talvez a verdadeira homenagem não esteja nas flores nem nas frases prontas. Talvez esteja no dia em que não será mais necessário se esforçar tanto para existir, ocupar espaços e voltar para casa em segurança.

Até lá, o que permanece é essa presença firme — de mulheres que seguem, todos os dias, escrevendo histórias muito maiores do que qualquer data no calendário.

 
 
 
Por Jaqueline Debald, escritora e autora de cinco livros publicados. Observadora das ruas, dos silêncios e das pequenas revoluções que acontecem na vida comum, escreve para transformar sentimentos em reflexão e pertencimento. Para saber mais, acesse: https://sites.google.com/view/escritorajaquelinedebald