Jornal Ação de Barão/RS.

Entre em Contato

Telefone

(51) 99533-9584

Endereço

R. Profa. Maria Edite Selbach, 29/102 - Centro, Barão - RS, 95730-000.
Jornal Ação

O QUE NÃO CABE NA MANCHETE

01/03/2026 às 19:58 // .

Comenta-se que é só um campeonato.
Só um jogo.
Só uma disputa de fim de semana.

Mas quem já ficou na beira da quadra sabe que não é só.

Existe algo na competição que nos desnuda. A quadra vira espelho. O placar vira medidor invisível de orgulho. E, de repente, não é mais sobre a bola que corre — é sobre tudo aquilo que carregamos enquanto corremos atrás dela.

Competir é um verbo curioso. Ele carrega força, mas também fragilidade. Porque, no fundo, só se incomoda quem se importa. Só sente a derrota quem desejou, de verdade, vencer.

Há quem diga que a rivalidade move. E move mesmo. Move treinos depois do expediente. Move conversas atravessadas na arquibancada. Move lembranças antigas que nunca foram totalmente arquivadas. A competição acorda coisas que estavam quietas.

Às vezes, acorda o melhor.
Às vezes, o contrário.

Há uma linha quase invisível entre querer ganhar e precisar ganhar. Entre celebrar um gol e transformar o outro em inimigo. Entre vibrar e ferir.

E talvez a maturidade esteja justamente em perceber que o adversário não é obstáculo — é condição. Sem ele, não há jogo. Sem ele, não há superação. Sem ele, não há história para contar na segunda-feira.

A cidade observa. A cidade comenta. A cidade toma partido. E, ainda assim, continua sendo a mesma quando as luzes se apagam e a quadra esvazia.

No fim, o troféu ocupa uma estante.
Mas a forma como jogamos ocupa a memória.

Competir pode ser sobre provar algo aos outros.
Ou pode ser sobre descobrir algo em si.

Comenta-se muito sobre quem ganhou.
Mas talvez o que realmente importe seja: quem fomos enquanto disputávamos?

Porque o apito final sempre chega.
E, quando ele chega, sobra apenas aquilo que não dependia do placar.

 
Por Jaqueline Debald, escritora e autora de cinco livros publicados. Observadora das ruas, dos silêncios e das pequenas revoluções que acontecem na vida comum, escreve para transformar sentimentos em reflexão e pertencimento. Para saber mais, acesse: https://sites.google.com/view/escritorajaquelinedebald