Jornal Ação de Barão/RS.


20/09/2026 às 10:46 // .
O inverno também faz parte
Você já reparou que ninguém estranha quando uma árvore perde as folhas?
No outono, ela muda. Fica mais silenciosa, mais enxuta, quase parece sem vida. Quem olha de longe pode imaginar que ela está enfraquecendo. Mas acontece justamente o contrário.
Ela está economizando energia.
Quando as condições deixam de ser favoráveis, a árvore concentra seus recursos naquilo que é essencial para continuar viva. As folhas caem para que o tronco e as raízes atravessem o inverno. Não é um sinal de fracasso. É uma estratégia da própria vida.
Talvez nós também sejamos assim.
Vivemos em uma cultura que celebra apenas a primavera: a produtividade, a expansão, os projetos, as conquistas, a felicidade constante. Como se estivéssemos sempre obrigados a florescer.
Mas a natureza nunca floresce o ano inteiro.
Existem períodos de crescimento, mas também existem períodos de recolhimento. Momentos em que a vida parece pedir menos movimento para fora e mais atenção para dentro.
Na Medicina Veterinária, aprendi que um organismo em situação crítica faz algo semelhante. Diante de um choque, o corpo prioriza aquilo que é indispensável. O fluxo sanguíneo é direcionado aos órgãos vitais, como o cérebro e o coração, enquanto as extremidades recebem menos irrigação. É uma forma de preservar a vida.
Às vezes fazemos isso sem perceber.
Quando atravessamos uma perda, uma doença, uma mudança inesperada ou qualquer fase difícil, talvez não seja hora de produzir mais, responder mais ou carregar ainda mais peso. Talvez seja o momento de cuidar do que sustenta quem somos.
Do lado de fora, pode parecer que pouco está acontecendo.
Por dentro, porém, muita coisa está sendo preservada.
Gosto de pensar que também somos seres cíclicos. Fazemos parte da mesma natureza que admiramos. Assim como as árvores, temos nossos outonos, nossos invernos e, quando chega o tempo certo, nossas primaveras.
O problema é que muitas vezes brigamos com o inverno.
Queremos flores onde ainda é tempo de criar raízes. Queremos frutos quando ainda estamos aprendendo a permanecer de pé.
Talvez viver com mais leveza seja justamente confiar que nenhum inverno é definitivo.
A primavera nunca chega porque alguém a força. Ela chega porque houve tempo suficiente para que a vida, silenciosamente, se reorganizasse.
E talvez seja isso que a natureza tente nos ensinar todos os anos: florescer não é viver sempre em expansão. É respeitar cada estação da própria vida.
Camila Calliari
Costurando Histórias
Camila Calliari acredita que toda história pode revelar algo sobre quem somos. Veterinária, artista, escritora e criadora de conteúdo, escreve sobre as conexões entre pessoas, memórias, natureza, viagens e acontecimentos do cotidiano. Seus textos nascem da curiosidade, das perguntas e da vontade de encontrar sentido nas experiências da vida e, quem sabe, também na vida de quem lê.
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