O QUE NÃO CABE NA MANCHETE
07/08/2026 às 14:44 // .
Há uma contradição curiosa no Brasil. Gostamos de dizer que a educação transforma vidas, que a cultura é essencial e que os livros mudam pessoas. Mas, na prática, tratamos quem escreve como se estivesse perseguindo um hobby caro demais para ser levado a sério.
O escritor brasileiro, independente ou publicado por uma grande editora, aprende cedo que escrever é apenas uma parte do trabalho. Depois de concluir um livro, ainda precisa convencer as pessoas de que ele merece ser lido. Precisa divulgar, vender, participar de eventos, alimentar redes sociais e, muitas vezes, ouvir que seu livro "está caro", mesmo quando custa menos do que uma pizza compartilhada entre amigos.
Talvez o problema não esteja apenas na forma como enxergamos os escritores, mas na forma como deixamos de enxergar os livros.
A leitura perdeu espaço. Não porque faltem boas histórias, mas porque sobra pressa. Vivemos cercados por conteúdos de poucos segundos, por notificações constantes e pela necessidade de consumir tudo rapidamente. Ler exige algo que se tornou raro: presença.
Não é difícil encontrar alguém que passe horas diante de uma tela, mas diga que não consegue ler vinte páginas de um livro. A questão não é falta de tempo. É falta de hábito. E hábitos, quando abandonados, levam consigo muito mais do que imaginamos.
Quando uma sociedade lê menos, ela também questiona menos. Imagina menos. Desenvolve menos empatia. Um livro nos obriga a acompanhar pensamentos diferentes dos nossos, a entender outras realidades e a desacelerar para compreender, em vez de apenas reagir.
Enquanto isso, o escritor continua produzindo quase em silêncio.
No Brasil, publicar um livro ainda é um ato de resistência. Muitos autores investem recursos próprios, enfrentam burocracias, distribuem exemplares pessoalmente e carregam caixas para eventos onde, às vezes, vendem poucos livros. Ainda assim, continuam escrevendo. Não porque seja fácil, mas porque acreditam que histórias importam.
E elas importam.
Cada livro nacional comprado representa muito mais do que uma venda. É um incentivo para que outra história exista. É um reconhecimento de que nossa literatura também merece espaço nas estantes, nas escolas e nas conversas.
Valorizar o escritor brasileiro não significa deixar de ler autores estrangeiros.
Significa compreender que a cultura de um país também é construída por quem escreve sobre suas ruas, seus sotaques, seus medos e suas esperanças.
Talvez a verdadeira notícia que passe despercebida não seja a dificuldade de vender livros, mas a facilidade com que deixamos de lê-los.
Porque um país que para de ler dificilmente continuará escrevendo a própria história.
Por Jaqueline Debald, escritora e autora de cinco livros publicados. Observadora das ruas, dos silêncios e das pequenas revoluções que acontecem na vida comum, escreve para transformar sentimentos em reflexão e pertencimento. Para saber mais, acesse: https://sites.google.com/view/escritorajaquelinedebald